Uma Entrevista Por Mês - Editorial Caminho (link)
Dezembro de 2005 - António Borges Coelho
Entrevista elaborada a partir de questões formuladas pelos leitores
«Qual a sua opinião sobre o “ataque” que tem sido feito aos cursos universitários na área das ciências sociais e humanas, perspectivando o encerramento de alguns destes cursos?
Aos Conselhos Científicos das Universidades cabe, em princípio, zelar pela qualidade e a rentabilidade dos cursos ministrados. Hoje a área das Ciências Sociais e Humanas é a parente pobre e a principal visada pela contenção das despesas. No entanto, não sou contra o encerramento de cursos quando criados para garantir uma “coutada” privada.
Como é que encara a redução da duração das licenciaturas desencadeada pelo processo de Bolonha? Que reflexos terá essa medida na qualidade do ensino ministrado na licenciatura de História?
A redução de número de anos na licenciatura, proposta pelo processo de Bolonha, vai “engordar” as estatísticas de sucesso, formando mais alunos com menos despesa. A especialização tornar-se-á cada vez mais cara. No que se refere à História, reduzindo para três anos o tempo lectivo, será mais difícil ensinar a fazer e a ler História. Aumentará o recurso a “pacotes” informativos, voltados sobretudo para a história dos países dominantes, e com menor abertura para a leitura crítica.
De acordo com a sua experiência como historiador, e concedendo que a história analisa o passado, acha possível perspectivar o futuro que se aproxima? Se sim, qual a sua opinião?
A História não descreve nem analisa o futuro. Fornece um material riquíssimo de experiência humana indispensável para iluminar os nossos actos. Mas o número de variáveis é tal que não podemos anunciar e menos ainda decretar o futuro. Sabemos, no entanto, que as variáveis do futuro são um pouco como as linhas do sismógrafo girando à volta do rolo e com oscilações bruscas.
O Professor é uma pessoa social e politicamente empenhada ao longo de toda a sua vida e conta com uma experiência de vida única. Podemos acalentar a esperança de uma incursão do especialista em História Moderna na História Contemporânea, através de um relato na 1.ª pessoa?
A História Contemporânea é aparentemente fácil, os factos parecem estar ao alcance da nossa mão, mas é extremamente complexa, por estarmos tão próximos e pela infinito da informação. A subjectividade do historiador é aqui mais difícil de conter, tanto mais que a pressão social, no sentido de encaminhar a descrição, silenciar os próprios acontecimentos e determinar a sua valorização, é no contemporâneo muito mais forte e transforma-se, mesmo contra vontade dos autores, uma peça do combate ideológico. Relatos na primeira pessoa, só na ficção. E ainda agora dei à estampa uma novela sobre os tempos sombrios intitulada Youkali. Mas se a natureza for generosa comigo, talvez consiga avançar da Época Moderna para a Época Contemporânea…
Passaram, há algumas semanas, 250 anos sobre o terramoto de 1755, em Lisboa. Qual a sua visão sobre uma catástrofe natural que implicou profundas alterações ao nível do pensamento não só português mas também europeu?
O ano findo foi fértil em estudos de qualidade sobre o terramoto de Lisboa de 1755. Não me alongarei na resposta. A primeira alteração provocada pelo terramoto ocorreu na própria cidade de Lisboa. Ainda hoje conserva, felizmente, marcas da época medieval, renascentista e barroca, mas o terramoto fez emergir, sobretudo na Baixa, a Lisboa iluminista. O tremor de terra e o maremoto desencadeou também um movimento de solidariedade por parte da Inglaterra, da França, da Espanha e do Brasil colonial. Levantaram-se vozes anunciando que o fenómeno se devia a castigo divino pelos pecados dos homens mas as explicações naturais ganharam a partida. O impacto produzido nas consciências ficou marcado na obra de grandes vultos da Época como Kant ou Voltaire.
O Professor introduziu na historiografia portuguesa temas tabus como a presença e influência árabe na história e cultura portuguesas ou a fantástica investigação sobre a Inquisição de Évora. Parece-lhe que na Universidade actual, cada vez mais dominada por problemas económicos e reflectindo também por isso o pensamento político do poder, podem existir espaços e pessoas capazes de incentivarem projectos de investigação de ruptura com o saber dominante, como foram os seus?
A História Social é sempre vista com alguma desconfiança pelos poderes estabelecidos. A Sociologia não tanto. Tem sido, em geral, benéfica para o poder. Hoje, alguma da historiografia dominante, ao iluminar quase em exclusivo o papel das elites, deixa no ar a ideia de que só elas fizeram e fazem a história. Ela é fita por dominadores e dominados. Evidentemente, a história das elites permite maior recompensa mediática. Mas felizmente há muita gente hoje, novos e mais velhos, a aprofundar o conhecimento histórico.»