
Nos últimos meses vem arrastando-se uma polémica sobre a preservação, ou não, da casa lisboeta onde Almeida Garrett viveu e morreu. Pessoalmente acho que é uma polémica estéril e que a casa não merece tanta preocupação na sua salvaguarda. Quantas casas dos anos 20/30 (Arte Déco), com merecimento artístico, tem sido destruídas em Lisboa, muito mais relevantes para a história artística e urbanística do que esta casa de Garrett, e ninguém se move(u) para as salvar…
A dita casa, situada na Rua Saraiva de Carvalho, no Campo de Ourique, é propriedade do actual ministro da Economia, que pretende demoli-la parcialmente e construir no seu lugar um prédio e um parque de estacionamento.
Para preservar a casa várias entidades ligadas à cultura, assim como o deputado Manuel Alegre, e uma petição online, tentam pressionar a Câmara Municipal de Lisboa a classifica-la de imóvel de interesse concelhio, e deste modo salva-la. Na petição online, segundo o Público Local de 23/04/05, é afirmado que «o prédio faz parte da geografia literária da cidade» e que é um edifício relevante para a identidade lisboeta.
Ora, a meu ver, estas afirmações são estranhas já que:
1. A geografia literária lisboeta parecia desconhecer a dita casa até há pouco tempo, e também não conheço actividades turísticas ou lúdicas referentes a ela. Ou seja a preocupação é recente. Não resta qualquer tipo de espólio na casa referente a Almeida Garrett.
2. A identidade lisboeta terá mais empatia e urgência em defender do camartelo outros edifícios de relevo. (ex. parte do Aqueduto das Águas Livres).
3. O incoerência do IPPAR. Muitos edifícios (lisboetas ou não) e locais arqueológicos por todo o país estão por classificar e proteger, merecendo mais atenção do que este. Seria, por exemplo, muito mais relevante este organismo ter protegido anteriormente (de facto) a Quinta da Bacalhoa das mutilações e destruições que sofreu pelo actual proprietário.
Os monumentos que merecem ser salvos pelos seus frescos, peculiaridades arquitectónicas ou estilísticas desaparecem na voragem do progresso um pouco por todo o país, provocando essa destruição poucos protestos. É estranho que uma casa que não tenha assim tanto relevo histórico ou artístico provoque tanto celeuma.
Se querem honrar o autor de Frei Luís de Sousa promovam as suas obras no ensino escolar, maratonas de leitura dos seus livros, colóquios sobre a sua vida e obra e traduções noutras línguas.
A sua interessante obra literária é o melhor legado que Almeida Garrett deixou e que urge defender. Pensem nisso os senhores do Pen Club, Centro Nacional de Cultura e Sociedade Portuguesa de Autores.